Chamado ao Ciclo de debates Abreu e Lima sobre o socialismo e o mundo contemporâneo
- grupomonizbandeira
- 22 de nov. de 2023
- 7 min de leitura

"Batalha de Carabobo"José Claudio (2002)
A eclosão da crise do capital em 2008 abriu uma caixa de pandora sobre os povos
do mundo. Na América Latina o ciclo histórico de calmaria da chamada onda progressista,
iniciado pela corajosa inciativa bolivariana do comandante Hugo Chávez após vencer as
eleições em 1998 na Venezuela, foi debilitada com a sequência de golpes em Honduras
(2008) e no Paraguai (2012), as desestabilizações e infiltrações no Brasil que resultaram
no golpe de 2016, a ocupação parasitária do FMI na Argentina, o cerco e chantagem e
bloqueio sobre a Venezuela e Cuba, os golpes clássicos na Bolívia em 2019 no Peru em
2022, a proscrição de lideranças como Cristina Kirchner, Rafael Correa e a dramática
prisão de Lula que cimentou a vitória do filo-fascista Jair Bolsonaro em 2018.
São as guerras de novo tipo: jurídicas (lawfare), guerra midiáticas por meio de
bombas semióticas e instrumentos de tortura cognitivas, revoluções coloridas, golpes
parlamentares. Entretanto, toda essa linguagem do horror não foi exclusividade latino-
americana, no Oriente Médio e Norte da África as primaveras árabes se revelaram como
um devastador outono com o brutal e constrangedor assassinato do líder pan-africano e
pan-arabista Muamar Kadhafi e a venda da população libia como carne escravizada no
país que tinha os melhores índices de desenvolvimento humano do continente africano.
Enquanto, no Leste Europeu a promoção do revisionismo nazifascista e chauvinista joga
irmãos e irmãs que pertenciam à pátria soviética uns contra os outros com vias de
alimentar o expansionismo militar da OTAN e inviabilizar e frustrar a interconexão
euroasiática.
Essa é a conjuntura histórica da Segunda Guerra Fria, onde por outro lado, a
República Popular da China se alça como ator histórico capaz de ameaçar a hegemonia
unipolar estadunidense, por meio de uma formação econômica superior, ao mesmo tempo
que se encontra, por outro lado, repleta de contradições contraídas pelo fulminante
crescimento econômico. Outro ator fundamental, a Rússia passa por um processo de
soerguimento civilizacional depois de mais de uma década de humilhações neoliberais,
após a ocorrência da maior catástrofe geopolítica para os povos na era contemporânea: o
fim da União Soviética. O gigante euroasiático desponta novamente na supremacia militar, embora sua pauta de exportações continue sendo fundamentalmente de recursos
energéticos.
Ao mesmo tempo que a Europa é tomada pela estagnação econômica, a erosão
dos aspectos mais elevados de sua cultura e a completa subserviência ao imperialismo
estadunidense, emergem novos atores globais fora do Ocidente como o alçamento da
República Islâmica do Irã à condição de potência militar e tecnológica, os levantamentos
militares no Sahel que passam a colocar em xeque o domínio neocolonial francês na
África e reanimam as ideias de Thomas Sankara e do pan-africanismo. A ampliação dos
BRICS questiona a ordem internacional do pós II-GM, e em parte, a ordem unipolar pós
queda da URSS, principalmente em seus aspectos econômicos-financeiros, e outros
espaços regionais como a CELAC tem a potencialidade de desenvolverem formas mais
elevadas de integração com a constituição de uma moeda comum e a constituição de
industrias multiestatais.
Em contraparte, a crise do capital e a conformação dessas propostas interestatais
alternativas alimentam a sanha imperialista, quando a América Latina possui a maior
parte das reservas mundiais do lítio e outros recursos energéticos críticos para o modelo
industrial do século XXI, enquanto a Venezuela está assentada sob as maiores reservas
de petróleo do mundo e o território brasileiro se situa sob os dois principais aquíferos do
mundo (Guaraní e Alter do Chão). Kamala Harris, vice-presidenta dos EUA recentemente
declarou que: “Durante anos houve guerras por causa do petróleo; em pouco tempo,
haverá guerras pela água”.
Esse amplo movimento histórico chamado de caminho ao paradigma multipolar
das relações internacionais, é muito mais que um simples rearranjo dos espaços
interestatais, pois possuí amplitude histórica de grandes dimensões apontando para
suplantação do paradigma de choque de civilizações em direção ao paradigma da aliança
de civilizações, e da crise da hegemonia colonial/imperialista atlântica iniciada no século
XVI à uma reorientação ao Pacífico como centro geoeconômico do mundo e a
reconstituição de grandes integrações terrestres comparáveis à I Rota da Seda e dos
califados muçulmanos. Esse movimento histórico que estamos presenciando encontra
equivalências com as duas guerras dos trinta anos: de 1618-1648, que conformou o
moderno sistema de Estados nacionais europeus e do período de 1914-1945 que marcou
a transição da hegemonia imperialista britânica para o poder estadunidense que se crê excepcional e divino e almeja a manutenção de seu domínio de espectro total em todos
os níveis: econômico, político, cultural, militar, tecnológico e até mesmo cognitivo.
Contudo, devemos ser radicais, apontando a coisa em suas raízes e mencionar que
as mudanças que estamos presenciando não se iniciaram em uma reunião de chefes de
Estado em 2011 na África do Sul, mas sim quando trabalhadores e trabalhadoras sob o
comando de Vladmir Lênin e seu partido assaltou o poder em outubro de 1917 na Rússia
e inaugurou o primeiro Estado operário e das nacionalidades do mundo. Foi lá em Baku
no Congresso dos Povos do Oriente de 1920 que os comunistas não-ocidentais alteraram
o famoso lema do Manifesto Comunista “proletários do mundo uni-vos” para
“proletários e povos oprimidos do mundo uni-vos”. A revolução social com o leninismo
deixaria de tarefa exclusiva da civilização europeia para ser obra dos povos do mundo,
dos povos colonizados, dos povos submetidos à dependência, ao subdesenvolvimento e a
espoliação dos oligopólios imperialistas.
Por isso, sem nenhum tipo de constrangimento saudamos sim os comunistas que
construíram a URSS, pois por meio dela se animou em um nível mais elevado as lutas na
África, Ásia e América Latina, agora com sua própria teoria, o marxismo-leninismo, a
expressão do materialismo histórico que é capaz de se nacionalizar conforme às
necessidade de cada formação histórica, ao mesmo tempo que pode ser verdadeiramente
internacionalista à medida que não é eurocêntrica, mas se nutre das experiências de lutas
dos povos de todo mundo. Saudamos sim à URSS, pois foi por meio dos 27 milhões de
filhos e filhas que se doaram durante a Grande Guerra Patriótica que pôde o mundo se
liberar das bestas nazifascistas, e assim se desabrochar a Revolução Chinesa de 1949, a
Revolução Cubana de 1959, as vitórias sem antecedentes do povo vietnamita contra os
franceses e estadunidenses e os processos de libertação na África.
Todo esse movimento que vemos hoje da descolonização das relações
internacionais são filhas diretas dos antecedentes revolucionários dos movimentos dos
não-alinhados de Bandung (1955) e Belgrado (1961) e da Tricontinental formada em
Havana (1966). E estas nos lembram que ainda que os organismos interestatais que
estamos vendo em germinação constituam projetos do ponto de vista da arquitetura
econômica e financeira superiores, os espaços de integração política dos povos no século
XX eram eticamente e moralmente mais avançados, pois se guiavam pelo socialismo.
Tal situação, nos permite pensar duas coisas: Primeiro que uma ordem
internacional mais justa entre os Estados independente de seus níveis e graus de
desenvolvimento abrirá contradições mais elevadas no seio de cada sociedade nacional,
onde as classes subalternas desejarem que essa ordem mais justa também seja mote da
reorientação produtiva e social de seus respectivos países; Segundo que a história do
socialismo nos mostra que revoluções mundiais em abstrato são impossíveis, sobretudo
na época do imperialismo em que os Estado nacionais se tornaram meios ainda mais
indispensáveis para o processo de acumulação de capital. Portanto, o socialismo como
imperativo mundial pode ser pensado como uma articulação complexa de diversas
experiências de edificações nacionais e renascimentos civilizacionais conectados por uma
longa transição em direção à uma nova conformação da economia mundial, como
superação da modernidade eurocêntrica e atlântica. Um processo complexo e
contraditório que não pode ser unívoco, mas que será inevitavelmente polissêmico.
Regressando as nossas particularidades é importante lembrar que as rebeliões
sociais no Chile e no Equador, ainda que nos fornecessem imagens esperançosas durante
um tempo, não impediram a manutenção da vigência da constituição pinochetista e a
eleição de um governo de esquerda liberal vacilante em um, e sucessivas eleições de
governos entreguistas no outro. Esses episódios nos apontam lições que permitem
compreender que as ultrafragmentações micro-políticas das lutas sociais sem um
direcionamento político histórico bem definido não são capazes de dar soluções aos
nossos dilemas. Cuba socialista é exemplo, pois demonstra um país que mesmo com a
imposição imperialista de um criminoso bloqueio econômico por mais de seis décadas,
consegue não somente manter o poder popular, como dentro de suas condições criar uma
potente indústria biotecnológica, manter padrões altíssimos de educação e de saúde e
cultivar uma população culta apesar das imensas dificuldades cotidianas vividas, e isso
se deve a manutenção do horizonte estratégico socialista e sua capacidade de correções
históricas.
Por outro lado, o capitalismo em seu atual estágio de desenvolvimento histórico,
na era da revolução científico técnica cumpre o vaticínio de Marx, no qual a extrema
diminuição do tempo socialmente necessário para a produção das mercadorias não levou
a uma maior liberdade da classe trabalhadora para sua autorrealização, pelo contrário,
proletarizou o que era antes dito como trabalhadores liberais, e acentuou a
superexploração da força de trabalho como padrão de acumulação. Tal fato sugere um novo paradigma da riqueza, o paradigma do tempo socialmente livre, que afirma o
socialismo como necessidade histórica de superação da degradação da humanidade e da
natureza pelo capital.
Por isso, convocamos os comunistas, socialistas e nacionalistas, intelectuais,
trabalhadores, independente de suas filiações partidárias para sentarmos em conjunto para
fazermos um balanço das experiências históricas do socialismo, suas conquistas, desafios,
erros e limitações; a importância histórica mas também os erros e limitações do
movimento comunista brasileiro e latino-americanos; o futuro do socialismo; a realidade
brasileira e a dinâmica do capitalismo global através de uma abordagem científica capaz
de fornecer as devidas mediações táticas e uma estratégia comum capaz de pavimentar o
caminho organizativo para a verdadeira soberania nacional e contribuir para a construção
de expressões humanas eticamente superiores e uma formação econômica-social mais
elevada. Desse modo, o Grupo Moniz Bandeira e a Associação Cultural José Martí
convidam a conformação do Ciclo de Debates Abreu e Lima sobre o socialismo e o
mundo contemporâneo.
Por fim, saudamos todos aqueles se bateram no Brasil e no mundo pela
constituição de uma nova humanidade justa e fraterna. Saudamos Abreu e Lima, o general
de Bolívar, os pioneiros do marxismo no Brasil: Tobias Barreto, Silveiro Fontes, Manoel
Bomfim, Octávio Brandão, Astrojildo Pereira. Os heróis da Coluna Prestes, que tal como
Euclides da Cunha descobriu o Brasil na teoria social, estes descobriram o Brasil em
combate. Saudamos aos heróis e heroínas da Aliança Nacional Libertadora, em especial
a heroína de toda a humanidade progressista: Olga Benário Prestes. Saudamos aos
combatentes do Caparaó e do Araguaia, aos soldados de Lamarca e de Marighella, aos
milhares de heroínas e heróis que se encontram esmagados pelo terror policial, pelo
subemprego, nas favelas, nos bairros e nos campos, estudando e organizando sem tempo
de ter medo.
VIVA AS HEROÍNAS E HERÓIS DA LUTA PELO SOCIALISMO E A DIGNIDADE
NO BRASIL E NO MUNDO!
VIVA O MARXISMO-LENINISMO!
TODA SOLIDARIEDADE AO POVO PALESTINO!
PELO FIM IMEDIATO DO BLOQUEIO À CUBA!
OUSAR, LUTAR, OUSAR VENCER, VENCEREMOS!
Grupo de Pesquisas e Estudos Nacionais Estratégicos – Moniz Bandeira
Associação Cultural José Martí – Rio de Janeiro
Rio de Janeiro, 23 de novembro de 2023
コメント